O que faz um psicanalista?

Aprenda um pouco sobre o que faz um psicanalista no tratamento psicanalítico.

imagens de van gogh

Muitas pessoas têm curiosidade sobre o que faz um psicanalista no dia a dia do consultório. A figura do profissional que escuta o paciente enquanto este fala em um ambiente reservado é bastante conhecida, mas o trabalho psicanalítico vai muito além de uma simples conversa.

Abaixo, explico como funciona a atuação do psicanalista, qual é o seu papel na sessão e de que forma essa escuta diferenciada auxilia no tratamento do sofrimento humano.

Qual é a formação de uma psicanalista?

Diferente de um psicoterapeuta — que obrigatoriamente cursou psicologia e deve possuir o registro profissional junto ao Conselho Regional de Psicologia —, a psicanálise não é uma profissão regulamentada no Brasil. Portanto, não exige (e nem emite) um número de registro em órgão fiscalizador dessa natureza. Por isso, a graduação inicial de um psicanalista pode ser em qualquer área do conhecimento, sendo comumente oriunda das ciências humanas.

O que torna um profissional apto a exercer a psicanálise é a sua formação pós-graduada e dedicada ao tripé freudiano:

  1. Análise pessoal: A vivência do próprio processo analítico.
  2. Estudo teórico: Aprofundamento contínuo na obra de Freud e de seus sucessores.
  3. Supervisão clínica: A discussão de casos clínicos com analistas mais experientes.

Além disso, a partir da minha experiência, acrescento a importância da participação em Instituições ou Escolas de Psicanálise, onde é possível construir uma interlocução viva com outros colegas na mesma orientação teórica.

Assim, uma psicóloga pode se tornar uma psicanalista, mas nem todo psicólogo é psicanalista. Da mesma forma, uma psicanalista não atua como uma psicoterapeuta convencional (que conduz a psicoterapia). Uma profissional que é psicanalista e possui formação em psicologia conduzirá, especificamente, um tratamento analítico.

Você pode conhecer mais sobre meu percurso de formação aqui no site, na aba sobre.

Existe diferença entre frequentar um profissional ou outro?

Sim, existem diferenças importantes na condução do trabalho. De modo que a resposta para a pergunta do título é que sim, existe diferença. Entretanto, a diferença não apresenta um juízo de valor, já que existem muitos fatores ligados a um tratamento funcionar ou não para o paciente.

Um psicoterapeuta sempre conduzirá uma psicoterapia, cujas abordagens variam dentro da psicologia (como a Análise do Comportamento, a Terapia Cognitivo-Comportamental, a Gestalt, entre outras). A diferença mais relatada pelos pacientes entre a psicoterapia e a análise diz respeito à participação do profissional nas sessões. Na psicoterapia, o psicólogo costuma ser mais ativo em orientar, propor técnicas e direcionar a fala. Na análise, o analista ocupa outro lugar: o de uma escuta mais silenciosa e sustentada, o que não significa ausência de participação, mas sim a recusa em dar orientações diretas sobre o que o paciente deve fazer.

No campo psicanalítico, a atuação da profissional também varia conforme a vertente teórica* adotada, como a winnicottiana, a kleiniana e a lacaniana. Minha prática é orientada pela psicanálise lacaniana, compartilhando semelhanças e especificidades em relação às demais correntes.

O que faz uma psicanalista lacaniana?

O papel do analista é conduzir uma análise. Isso significa, primordialmente, atuar a partir da ética psicanalítica, prezando o laço da transferência**. Por isso, dentro de uma análise, a pessoalidade e o afeto do profissional só devem comparecer a partir da vacilação da neutralidade calculada***. Além disso, o analista deve sustentar o espaço para a associação livre, permitindo um fluxo de pensamentos sem a exigência de uma ordem lógica ou cronológica rígida.

O processo analítico permite conectar o paciente à sua responsabilidade sobre aquilo de que se queixa, ajudando-o a separar o que é seu e o que pertence ao outro. Assim, constrói-se um “saber-fazer” diferente com as pedras encontradas no caminho da vida, permitindo lidar de outra forma com a própria intimidade e com as questões cotidianas.

Nesse percurso, o analista auxilia o paciente a identificar onde costuma tropeçar e a examinar o que é possível fazer com cada uma dessas questões.

Aprenda mais sobre a psicanálise:

* A teoria freudiana teve diversos leitores os quais fundaram sua própria leitura da psicanálise, em um processo dialético com Freud, de modo que, atualmente existem leituras divergentes acerca da teoria freudiana, e se faz necessário, seguir uma delas para uma melhor atuação clínica.

** Transferência é o conceito criado por Freud para falar sobre o laço amoroso que surge do paciente com seu analista. Este pode conter diversas maneiras e significações, e é uma parte importante do tratamento.

*** Vacilação da neutralidade de maneira calculada é uma orientação dada por Lacan para os analistas, visto que na análise não se trata de ser um ambiente frio, mas sim, propiciar que a sessão seja sobre o paciente, e não os sentimentos do analista.

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