A psicanálise completou 124 anos desde que, em 1900, Sigmund Freud lançou A Interpretação dos Sonhos, obra que marcou o nascimento oficial da disciplina. Ainda que esse livro seja o ponto de partida reconhecido, seu interesse sobre os sintomas de histeria já fazia parte de seus artigos anteriores. Essa curiosidade clínica levou‑o a investigar a origem desses sofrimentos, a estudar a histeria e construir um aparato teórico robusto capaz de explicar o inconsciente. Assim, foi possível propor um método de tratamento que ainda hoje ajuda milhares de pessoas a lidar com o mal‑estar psicológico.
A proposta freudiana provocou, no final do século XIX e início do XX, tanto controverso quanto fascínio entre médicos, filósofos e intelectuais. Cada um desses pensadores reinterpretou o inconsciente à luz de seu próprio contexto cultural e científico, gerando diferentes escolas que permanecem vivas até hoje. Assim, quando alguém pergunta “existem várias psicanálises?”, a resposta é sim: a tradição freudiana deu origem a diversas correntes. A seguir, apresentamos as três linhas mais influentes, explicando suas origens, principais conceitos e contribuições para a prática clínica contemporânea.
1. Psicanálise Freudiana e Melanie Klein
Freud foi o pioneiro ao introduzir o conceito de inconsciente e ao afirmar que “o sintoma fala”. Por isso, Assim, os sintomas são manifestações simbólicas de conflitos reprimidos que precisam ser trazidos à consciência para que o sujeito possa encontrar alívio. Melanie Klein (1882‑1960), uma das primeiras mulheres a se destacar no campo, aprofundou essa perspectiva trabalhando intensamente com crianças. Klein mostrou que o sujeito cria relações objetais – ligações emocionais com objetos internos “bons” ou “maus” – e adota mecanismos de defesa paranoides, histéricos ou obsessivos. Essa expansão mostrou que os vínculos afetivos iniciais moldam a estrutura psíquica e afetam como o indivíduo lida com ansiedade, culpa e desejo ao longo da vida.
2. Psicanálise Winnicottiana
Donald Winnicott (1896‑1971) trouxe ao debate psicanalítico uma nova ênfase: a importância da mãe e do desenvolvimento do Self. Enquanto Freud focalizava o inconsciente como um reservatório de impulsos reprimidos, Winnicott reinterpretou o “Eu” freudiano. Ele propôs que as experiências precoces de cuidado podem fortalecer ou fragilizar o Self — escrito com “S” maiúsculo para indicar uma entidade psicológica distinta, e não apenas um pronome. Para ele, um Self forte integra exigências internas (pulsões, desejos) às demandas externas (expectativas sociais, papéis), preservando continuidade e autenticidade.
Essa perspectiva destaca a necessidade de um ambiente suficientemente “bom o bastante” que permita ao bebê experimentar frustração sem perder a confiança básica de ser cuidado. Na prática clínica, a abordagem winnicottiana auxilia o terapeuta a identificar rupturas no desenvolvimento do Self e a promover experiências reparadoras dentro da relação analítica. Essa leitura corrobora com os desenvolvimentos teóricos promovidos nos Estados Unidos, e caminha um pouco mais afastado das ideias postuladas por Freud.
3. Psicanálise Lacaniana
Jacques Lacan (1901‑1981), psiquiatra francês, distinto dos teóricos anteriores, deslocou o foco da infância para a linguagem e a psicose. Diferente de Freud e de seus sucessores, que analisavam o inconsciente a partir de símbolos e fantasias, Lacan sustentava que o sujeito nasce feito de palavras. De modo que o inconsciente está estruturado como uma linguagem que opera segundo regras semelhantes às da gramática. Assim, para Lacan o discurso do paciente contém “efeitos inconscientes” que se desvelam por meio da escuta atenta e da interpretação das falhas, lapsos e metáforas que emergem na fala.
O percurso analítico lacaniano, portanto, consiste em resgatar esses efeitos linguísticos, trazendo‑os à consciência para que o sujeito reconheça como as palavras moldam sua identidade, seus desejos e seus limites. Essa abordagem é particularmente útil no tratamento de psicoses, onde a ruptura com a realidade se manifesta através de discursos desorganizados e de significantes que perdem sua conexão com o sentido comum.
Qual abordagem pode ser a mais adequada para você?
Embora cada corrente apresente conceitos e técnicas específicas, todas compartilham o objetivo central de ajudar o indivíduo a compreender e transformar conflitos internos que impedem o bem‑estar. Cada orientação psicanalítica possui uma orientação clínica específica, além do estilo do próprio analista ao conduzir o tratamento, de forma que é importante buscar um profissional que lhe cause o desejo de falar. Nem sempre uma análise é confortável, mas para aqueles que se dedicam, ela permite mudanças na forma de ver e experienciar o mundo.
Tem dúvida sobre qual orientação é mais adequada para você?


