As discussões sobre o uso de drogas faz parte do contexto da sociedade contemporânea. Diante da multiplicidade de químicos e a facilidade trazida pela tecnologia, vivemos em uma época em que a droga está logo na esquina. Diante desta realidade, o movimento Zadig Córdoba fez uma entrevista e convidou alguns autores para discutir a temática, dentre estes, eu fui convidada e compartilho com vocês o meu texto.
Empatia química na trama social
A entrevista produzida pelo Zadig* Córdoba junto de Daniel Salas (Mestre em Ciência e Toxicólogo Forense – Especialista em Drogas sintéticas y Novas Substâncias Psicoativas) abre uma série de discussões importantes sobre a atualidade. Antes da leitura de meu artigo, recomendo assistir a entrevista disponibilizada no Blog Zadig Patria del Sinthome:
Efeitos neoliberais na relação sujeito-droga
As substâncias psicoativas são parte indissociável da história humana, ocupando diversos espaços ao longo dos séculos: marco da relação do homem com a natureza, da conexão com o sagrado até seus usos terapêuticos. Enquanto as duas primeiras maneiras incluíam um uso ritualístico ligado diretamente a cultura de um povo, a função medicinal permitiu o afastamento destas substâncias no nível do laço. Alvo direto do cientificismo fundado com o progresso do capitalismo, acompanha-se desde o século 19 uma transformação e uma deturpação destes laços agregando a estas substâncias uma característica diferente: a de produto[i].
Este novo traço origina um mercado, o comércio das drogas. Neste sentido, suas modificações não se encerram na transformação em produto, mas nas formas de capitalismo vigentes ao longo dos séculos. No período da Revolução Industrial, primeira grande expansão do capitalismo, as substâncias mantiveram sua dimensão comunitária. Suas origens advieram principalmente de plantas como folha de coca, Cannabis, Papoula[ii] e outras, que demandavam não só a mão de obra para as plantações, como também uma infraestrutura para sua extração, refino e distribuição.
Entretanto, nos últimos anos, acompanhamos o desenvolvimento de um estágio mais avançado, marcado pelo neoliberalismo com suas políticas de constante crescimento e ampliação sem qualquer responsabilidade com os efeitos[iii]. Como consequência, o número das substâncias que se circulam aumentou e é distinto dos tipos convencionais dos séculos passados, reduzindo também a necessidade de ampla infraestrutura. Estas novas drogas são mais potentes e de ação mais rápida[iv], possibilitam uma sintetização clandestina e individual das estruturas químicas. Inserindo no uso da substância sua versão hipermoderna individual, tecnológica e mercadológica a serviço da experiência do usuário.[v]
De modo que, não se trata apenas de uma satisfação pulsional, mas uma dimensão não-corpo, uma retirada do campo dos discursos ou do Outro, a partir de um modo de gozar sem lei ética e desprovido de significações[vi]. Santiago (2017) nomeia essa prática um atalho cínico, ao buscar “um domínio do corpo capaz de evitar os dois maiores inimigos do homem: prazer e o sofrimento”[vii]. Trata-se, pois, de uma ruptura e não um uso em sua versão sintomatológica, de formação de compromisso, já que não se supõe um objeto.[viii]
A partir deste atalho, o uso de substâncias psicoativas apresenta-se de uma nova maneira. Envolvido na experiência do não-corpo, o homem é um instrumento ao qual o químico conduz, em um espaço de experimentação particular. Neste sentido, seu funcionamento toma sua face neoliberal da liberdade individual radical ao permitir que cada um vivencie a droga em uma solidão sem lei ou ética.
O corpo torna-se uma máquina condutora de experimentos da capacidade da tecnologia, em que o atalho cínico não se encerra em evitar o prazer e o sofrimento, mas poder vivenciar tudo em uma livre demanda. Não há interlocutores no curto-circuito homem-droga capazes de inserir um limite, visto que esta própria ideia é o ato mais grave dentro de uma política neoliberal. Assim, torna-se “una máquina que avanza […] sin importar si en el camino va perdiendo un brazo, un órgano o le disparan, lo mojan o lo queman”[ix]
O sujeito fixa-se em uma conexão química individual voltado para um mais-de-gozar que ultrapassa a si próprio. Não há o que perder, quando não há um corpo ou laço. Exemplificando via ato a versão neoliberal de um indivíduo: aquele que é tão responsável por si próprio, que não é responsável por nada.
Para leitura da versão em espanhol, leia aqui:
* Zadig é o nome do movimento iniciado por Jacques Alain Miller dentro das Escolas da Associação Mundial de Psicanálise com enfoque em estudar a contemporaneidade e suas vicissitudes políticas.
[i] Informações retiradas da entrevista de Daniel Salas para o Zadig Cordoba. Disponível em https://lapatriadelsinthoma.wordpress.com/2026/01/08/empatias-quimicas-en-la-trama-social-entrevista-a-daniel-salas/
[ii] Planta de onde se extrai o opio
[iii] Leserre, A. (2019). La hidra neoliberal. Grama Ediciones
[iv] Informações retiradas da entrevista de Daniel Salas para o Zadig Cordoba.
[v] Assef, J. (2016) El hiper-zombi: una posible interpretación de mutaciones del sujeto contemporanéo. In Mutaciones del sujeto contemporáneo. p. 148
[vi] Santiago, J. (2017). A droga do toxicômaco. Relicário.
[vii] Santiago, J. (2017). A droga do toxicômaco. Relicário. p.185
[viii] Laurent, E. (2017). Três observações sobre a toxicomania. Pharmakon digital, n. 3
[ix] Assef, J. (2016) El hiper-zombi: una posible interpretación de mutaciones del sujeto contemporanéo. In Mutaciones del sujeto contemporáneo. p. 150


