Hoje, o uso de aparelhos eletrônicos por crianças é uma realidade cada vez mais presente. É comum vê‑las com tablets ou smartphones em restaurantes, no carro ou até mesmo brincando em grupo. Essa presença massiva levanta questões importantes: quais são os efeitos desses dispositivos no desenvolvimento infantil? Há mudanças na forma de criar filhos quando a tecnologia ocupa tanto espaço nas rotinas familiares?
Quem responde as perguntas das crianças?
Nos dias atuais a parentalidade mudou radicalmente. Não faz muito tempo que as crianças precisavam perguntar a um adulto sobre as diversas dúvidas que surgiam a respeito da vida cotidiana. “Por que o céu é azul?”, “Como se faz um arco-íris?”, “Por que precisa comer legume?”, “Como que eu fui parar na barriga da mamãe?” entre outras perguntas.
Questionamentos os quais ao serem direcionadas para um adulto possibilitava um estreitamento do laço afetivo. Para além disto, permitia com que a criança se relacionasse com o lúdico, vindo da resposta muitas vezes criativa do adulto perguntado. Entretanto, a criança perde a possibilidade do laço e do lúdico quando não faz mais perguntas para os adultos. Estas e outras dúvidas que surgem estão sendo direcionadas para o Chat GPT ou o próprio Google.
As crianças não mais acreditam que os pais são aqueles que sabem. Para elas, o saber está no Chat, no Google, e não naquele adulto que é responsável pelas suas atividades. Este deslocamento produz uma série de efeitos que prejudicam o desenvolvimento infantil.
O que acontece quando os pais não são mais referência na infância?
As perguntas presentes na infância não são meras dúvidas de como as coisas funcionam. Elas representam a maneira com que a criança se relaciona com o mundo ao seu redor. A partir do momento que a tecnologia está inserida na vida infantil, os pais são responsáveis por mediar não só sua relação com o mundo físico, como também o mundo virtual. O desafio aumenta porque os algoritmos recomendam conteúdos que nem sempre foram escolhidos pelos responsáveis.
No mundo do Chat GPT e do Google fazer pergunta para os pais se apresenta redundante, visto que o conhecimento está na “palma da mão”. Não só isso, como os próprios adultos buscam essas ferramentas para responder qualquer uma de suas perguntas. “Se nem mesmo meu pai sabe, para que vou perguntar?” É o que no discurso infantil em consultório ao comentar a retirada dos pais do lugar do saber.
O problema se agrava quando até mesmo os adultos acreditam que eles não podem ou não precisam mediar a relação da criança com a tecnologia. Um ciclo de desconexão de instala, em que o desfecho, é uma “criança-rei”, que dita as regras da casa e retira totalmente o responsável de seu lugar de portador das regras.
Qual é o papel dos pais?
O mais importante é lembrar que os responsáveis são aqueles que vão mediar a relação da criança com o mundo. De forma que as conversas, as dúvidas e o lúdico são uma parte importante do desenvolvimento não somente cognitivo mas subjetivo da criança. O movimento necessário nos dias de hoje é não tornar abstrato o papel dos responsáveis deslocando-o para a escola, os aparelhos eletrônicos ou as atividades extracurriculares. Estas ferramentas funcionam como uma certa rede de apoio, mas não podem substituir o laço parental.
Os adultos são quem devem inscrever para criança três coisas cruciais: presença, limite e palavra. De maneira que, é importante estar presente nos momentos que compartilha com a criança, engajado em escuta-la e interessado pelas suas vivências. Avaliar os momentos aos quais colocar limite, considerando que é isso que permite a criança aprender a ceder e a lidar com a sua própria frustração. E demonstrar disponível para falar, colocar em palavras os seus pensamentos direcionando para a criança uma parte de sua maneira de ser.
Mesmo com esses cuidados, pode surgir a necessidade de apoio profissional. O atendimento psicanalítico oferece um espaço seguro para a criança elaborar suas experiências, sem excluir a participação dos pais. Em casos de criança‑rei, a terapia ajuda a restabelecer o equilíbrio familiar, evitando que o excesso de estímulos virtuais cause dificuldades ao longo do desenvolvimento.
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