Neste trabalho me propus compartilhar um pequeno estudo em desenvolvimento fruto de um cartel nascido na pandemia. Busquei responder neste trabalho a minha pergunta sobre o que é o fenômeno elementar. Ademais, termino o texto com indicações para futuros trabalhos. Adentremos o tema.
O conceito de fenômeno elementar não tem sua origem, nem é restrito, ao campo da psicanálise. Ele foi uma categoria clínica inicialmente presente dentro da psiquiatria francesa, podendo ser encontrado na obra de Jaspers e de Clérambault, único mestre reconhecido por Lacan. Miller (2005) em seu texto “A invenção do delírio” demarca que os psiquiatras responsáveis por localizar o fenômeno elementar eram organicistas e, portanto, sustentaram que sua origem se dava no orgânico que sofria intromissão de um elemento psíquico não localizável. A causalidade do fenômeno elementar não teria antecedentes na personalidade, consciência ou caráter, e por isso, a conclusão de que seria de origem orgânica. (Miller, 2005)
Lacan, em sua tese de doutorado sobre o caso Aimée e a paranoia, abre uma outra via para o estudo dos fenômenos elementares. Assim como os organicistas, ele demarca a existência destes fenômenos, entretanto, integra-os em uma teoria da personalidade, se afastando então da perspectiva de sua origem no orgânico inicialmente encontrada. (Miller, 2005)
É interessante notar que ao longo de seus trabalhos iniciais sobre a psicose, seja em sua tese de doutorado ou no Seminário Três, Lacan ao mesmo tempo que se afasta de Clérambault, está sempre fazendo um retorno a ele. Um exemplo é a passagem a seguir:
“O importante do fenômeno elementar não é portanto ser um núcleo inicial, um ponto parasitário, como Clérambault se exprimia, no interior da personalidade, em torno do qual o sujeito faria uma construção, uma reação fibrosa, destinada a enquistá-lo envolvendo-o, e ao mesmo tempo, integrá-lo, isto é, explica-lo.” (Lacan, 1997, p. 28)
Nesta passagem, Lacan demonstra sua discordância em relação ao lugar dado na teoria de Clérambault para o fenômeno elementar. Para ele, não se deve pensar que é o fenômeno o ponta pé da psicose, um núcleo, mas sim, um efeito desta estrutura. É no Seminário Três que Lacan irá iniciar sua formulação sobre o fenômeno elementar e demarcar uma aproximação entre os fenômenos da psicose: delírio, alucinação e o fenômeno elementar. Entretanto, o primeiro e o terceiro possuem estruturas correlacionadas, a linguagem. Para melhor explicar, Lacan utiliza-se da metáfora da folha:
“São elementares como o é, em relação a uma planta, a folha em que se poderá ver um certo detalhe do modo como as nervuras se imbricam e se inserem – há alguma coisa de comum a toda planta que se reproduz em certas formas que compõem sua totalidade.” (Lacan, 1997, p. 28)
Em seguida mostra a aproximação entre o delírio e o fenômeno elementar:
“Do mesmo modo, estruturas análogas se encontram no nível da composição, da motivação, da tematização do delírio e no nível do fenômeno elementar. Em outras palavras, é sempre a mesma força estruturante, se é possível assim nos exprimirmos, que está trabalhando no delírio, quer o consideremos em uma de suas partes ou em sua totalidade.” (Lacan, 1997, p. 28)
Miller (2005), em seu texto “A invenção do delírio” esmiúça e investiga essa aproximação entre eles. Se inicialmente, temos uma correlação entre ambos, por serem estruturadas pela linguagem, é importante caminharmos de maneira a compreendermos a diferença entre as duas.
Um ponto inicial é o momento do aparecimento do fenômeno elementar e do delírio. O primeiro, para estar presente não precisa de uma psicose desencadeada, sendo ainda, uma marca da existência de uma estrutura psicótica. Sublinho a sua presença em uma psicose não desencadeada porque o conhecimento do fenômeno elementar é uma informação clínica importante para fazermos um diagnostico diferencial entre uma estrutura neurótica e psicótica não desencadeada, nomeada atualmente também como psicose ordinária.
Para Miller (2005) é partindo de um estudo da significação que se pode propor uma diferença crucial entre o fenômeno elementar e o delírio. O primeiro estaria para a psicose, assim como a formação do inconsciente estaria para a neurose. Então: “o fenômeno elementar representa algo, porém não se sabe muito bem o quê. Digamos que representa não se sabe o quê para alguém, para o sujeito.” (Miller, 2005, p. 8). Para pensar esse movimento de significação um tanto quanto inacabada, já que o sujeito psicótico sabe que significa algo, mas não sabe o que, Miller utiliza da metáfora e da metonímia. Caminhemos.
Dentro de um contexto neurótico, a metáfora possibilita o emergir de um novo sentido e a metonímia, ao deslizar conectando um significante a outro, permanece sempre na mesma cadeia significante e, portanto, não emerge um novo sentido. Em um contexto do fenômeno elementar, temos uma metonímia imóvel, não se desliza de um significante para outro, fica-se imóvel a um mesmo significante, um S1. E temos uma metáfora impotente já que, dela não emerge um sentido, novamente, sem uma criação para além do S1 já posto. (Miller, 2005).
Miller (2005) conclui então que o “fenômeno elementar põe-nos em presença de um S1, por isso, a significação não se desdobra. Ao contrário, o delírio é equivalente ao S2” (p. 18) e, portanto, o sentido irá correr a partir dele. Com estas indicações, Miller demarca um curto-circuito ao se colocar o delírio em S2, ou seja, no lugar do saber, que leva a conclusão que “todo saber é delírio e o delírio é um saber” (p.19). Neste trabalho não me delongarei mais nestas formulações por saírem de meu escopo proposto.
Estando diferido o delírio do fenômeno elementar gostaria de aprofundar um pouco mais na discussão a respeito da definição do último. Maleval (2020) coloca que apesar de ser um conceito que agrega uma diversidade clínica, ele é preciso: “lo hace equivaler a todo signo clínico que revela la estrutura psicótica” (p. 25). Para brevemente enumerar alguns temos: o automatismo mental, alucinações, vivências “místicas”, delírio, experiências de corpo entre outros.
Apesar de formulações ainda atuais sobre os fenômenos elementares, o termo foi abandonado por Lacan poucos anos depois da conclusão de seu seminário sobre a psicose, já em “Uma questão preliminar…” não o encontramos. Herbert Wachsberger (1995) irá introduzir que o fenômeno elementar é posto de lado em favor da experiência enigmática. Adicionando agora uma observação minha sobre o trabalho até agora produzido, se ainda estudamos os fenômenos elementares, isso me aponta que a experiência enigmática não o substituiu conceitualmente. Portanto, qual a nova perspectiva oferecida por essa experiência na psicose? É em direção desta pergunta que me encaminho agora. Obrigada.
REFERÊNCIAS
Lacan, J. (1997) Seminário 3: As psicoses.
Maleval, J-C (2020) Coordenadas para la psicosis ordinaria
Miller, J.-A. et. al. (2005[1995]). A invenção do delírio. El saber delirante. Buenos Aires: Paidós.
Wachsberger, H. (1995) Del fenómeno elemental a la experiencia enigmática.

