A discussão sobre a arte na psicanálise é complexa, podendo ser investigada a partir de diferentes perspectivas teóricas, como da sublimação, da suplência ou compensação, do sinthome, do Um. Às voltas com o tema da arte e com a figura de Clérambault, me questiono se sua relação com os drapeados poderia ser lida a partir do ‘comando do Um’?
Gaetan Gatian de Clérambault, psiquiatra francês, é conhecido na psicanálise lacaniana por ser nomeado por Lacan como uma influência e pela teoria do automatismo mental, retomada por Lacan em seu seminário três. Além de seu trabalho como médico-chefe na Enfermaria Especial de Paris[1], ele construiu um extenso material sobre drapeados africanos[2], desde fotografias com ênfase em seu funcionamento mecânico até uma coleção de tecidos com o objetivo de demarcar a origem étnica.
O encontro com os drapeados ocorreu em 1910, por uma passagem na Tunísia, e se desenvolveu a partir do seu posicionamento militar no continente Africano, principalmente em Marrocos, durante a Grande Guerra (1914-1919). Nesse momento, aprendeu árabe e iniciou um trabalho etnográfico por meio das fotografias e descrições, buscando classificar e catalogar a construção do drapeado como uma assinatura identificatória da tribo.[3] Este trabalho deu origem a quatro conferências na Escola Nacional de Belas Artes em 1924 e 1925, onde expunha seu trabalho por meio das fotografias e manequins de madeira, nos quais montava os drapeados à medida que descrevia sua mecânica[4].
Afirmava em suas conferências a importância do estudo de uma “vestimenta viva”, reivindicando o espaço dos drapeados frente aos estudos das vestimentas da antiguidade. Para Clérambault, existia uma falta de conhecimento e de esforço dos artistas para incluírem os drapeados no mundo da arte. Em sua tentativa de mudar esse cenário, convidava em suas conferências um levante artístico rumo aos drapeados, fazendo convites pessoais a figuras que julgava importantes para este processo. Chegou também a enviar uma doação de 1.112 fotografias para o Arquivo da Escola de Belas Artes, das quais por volta de metade foram indicadas para descarte por não terem utilidade[5].
Suas conferências e fotografias não representaram o esperado início de um movimento artístico, e logo a Escola de Belas Artes as suspendeu, sem ocorrer um eco com nenhum artista da época. Junto aos seus colegas psiquiatras, convidados somente para as duas últimas conferências, sua paixão acarretou um certo descrédito de sua obra psiquiátrica. Ainda que não chegasse a perder seu cargo de chefe da Enfermaria Especial, antes de sua morte, Clérambault já averiguava o efeito de seus esforço artístico: “Foi preciso uma tentação pela arte e uma ilusão passageira para cometer um ato danoso, para anular o renome de toda uma vida. […]. Sou punido, mais que por qualquer outra coisa, pela perda dos resultados de todo meu trabalho”[6]
Alvo do descrédito e sem eco artístico, Clérambault nunca chegou a publicar um livro dedicado a este estudo que anunciou em seu artigo sobre a classificação de drapeados de 1928. Em seus artigos “Classificação das roupas drapeadas”[7] e “Pesquisas tecnológicas sobre o drapeado”[8] encontramos um pouco do seu método, já visto no estudo sobre a psicose, um olhar minucioso sobre o ponto central que pudesse marcar com um/seu nome.
Lacan trará que “a obra vem sempre sob um comando”[9] e completa no parágrafo seguinte “o que comanda é o Um”[10]. O que seria este “Um”? Foi uma pergunta que ecoou no cartel fulgurante para a jornada. Recorro a Miller que o localiza como um significante primeiro em seu seminário Ser o Um, ele traz: “Todo significante, no sentido de cada significante, é Um”[11] e na aula seguinte comenta: “Como o Um chegou ao nosso mundo? Ele chegou por meio do significante”[12].
Qual significante comandaria Clérambault? Dewambrechies-La Sagna relata que os comentadores de Gaëtan sempre demarcam sua ênfase em fazer “um nome”.[13] Sobre isso, Lacan comenta que o nome se relaciona ao que seria o primeiro núcleo como significante de um sujeito[14].
Poderíamos pensar que o psiquiatra francês se tornou escravo do Um de seu nome próprio? Poderia o nome se inscrever como Um? Intentando criar essa marca não só no campo da psiquiatria, mas ao estudar o que dos drapeados nomearia cada etnia africana. Com isto, poderia construir uma espécie de linhagem, diferente do que foi capaz em vida, já que, com sua morte, sem filhos e sem outros irmãos adultos, se encerra a linhagem do nome ‘Clérambault’.
[1] Bercherie, P. Os fundamentos da Clínica: história e estrutura do saber psiquátrico, A psiquiatria francesa do Entre-Guerras, Rio de Janeiro, Zahar, 1969.
[2] O drapeado consiste em uma sequência de dobras e curvas sem o uso da costura com variados pontos de apoio para fixação do tecido que servem para cobrir o corpo humano.
[3] Copian, J. Read My Desire – Lacan Against the Historicists. Verso, 2015
[4] Barthe, C. Le movimente des étoffes, https://www.quaibranly.fr/fr/collections/vie-des-collections/actualites/boite-arts-graphiques/gaetan-gatian-de-clerambault-le-mouvement-des-etoffes
[5] Arnoux, D. O Grito da Seda, Analítica do Drapeado: as fotografias de Clérambault, Belo Horizonte, Autêntica, 2012.
[6] Clérambault, G. G. O Grito de Seda, Testamento, Belo Horizonte, Autêntica, 2012.
[7] Clérambault, G. G. O Grito da Seda, Classificação das Roupas Drapeadas, Belo Horizonte, Autêntica, 2012 [Primeira publicação em 1928]
[8] Clérambault, G. G. O Grito de Seda, Pesquisas Tecnológicas sobre o Drapeado, Belo Horizonte, Autêntica, 2012. [Primeira publicação em 1931]
[9] Lacan, J. O Seminário, livro 19: … ou pior, Capítulo 16: Os Corpos Aprisionados pelo Discurso, p. 214, Rio de Janeiro, Zahar, 2012.
[10] Idem
[11] Miller, J.-A., Ser e o Um, Aula 7, inédito, 2011.
[12] Miller, J.-A. Ser e o Um, Aula 8, inédito, 2011.
[13] Dewambrechies-La Sagna, Clérambault, una anatomía de las pasiones, Virtualia N 27, 2013.
[14] Lacan, J. O seminário, livro 9: A identificação, Lição 7. Inédito, 1961-1962.

