Desejo de Escola – Beatriz Udenio

Este texto foi publicado originalmente na Revista Virtualia da EOL nº 41 com o título: "Deseo de Escuela" e escrito por Beatriz Udenio. Apresento aqui uma tradução livre para o português.

A expressão “Vida da Escola” tomou, em 2020, na EOL (Escola de Orientação Lacaniana), um novo impulso. Surgiu na contingência do trabalho de um cartel, constituído de alguns dos membros que tinham entrado recentemente na Escola – e dos quais Adrián Scheinkestel fazia parte -. Ou seja, nasceu junto com o futuro da Escola. O tema proposto na ocasião: ‘Não há Escola sem impasses’. Destaco este ponto: quem quiser juntar-se a esse futuro se beneficiará de fazer uma imersão sobre nossas origens.

A Escola de Lacan

Quando estes assuntos surgem, com frequência menciono o “Ato de Fundação” da Escola Francesa de Psicanálise, realizado por Lacan em 1964 [1]. É um texto que desperta e permite vislumbrar algo novo e atual, em cada leitura. Uma fonte inesgotável sobre os fundamentos de nossa Escola!

Que recorto hoje daí? Lacan pensou a Escola como um lugar para cultivar um laço entre os membros, sustentado sob a modalidade do cartel e da inclusão de não analistas –  em 1967, incluiu também o passe -. Sua finalidade: que do dito laço não se acomodasse na lógica “entre nós”. Concebo modos de habitar a Escola, partindo da ideia de que não há laço sem seu ponto de impossível. Estar na Escola implica consentir: “esse” é seu real. Paradoxo fecundo que pode dar lugar a contingencias afortunadas, sempre e quando a preservamos e perseveramos em sua elucidação. A história de nossas instituições demonstra que isto não é sensível.

J. –A. Miller e as Escolas

A Escola de Lacan deu lugar a uma dissolução e uma nova fundação, já sem Lacan. Pela mão decidida de J.-A. Miller vieram as Escolas (no plural) e a AMP (Associação Mundial de Psicanálise). A vida da Escola passou a ser a vida de cada Escola, com a marca própria de cada uma, em sua íntima multiplicidade. Com crises, tratamento das crises e renovações.

E J.-A. Miller, nos tem levado, cada vez, a trabalhar para esclarecer isso.

Em 1990, em “Acero Abierto”[2] fundamenta claramente que a Escola é um meio para que o discurso psicanalítico sobreviva, e que, de tempos em tempos, a Escola necessita de um “novo vigor”. Refere-se à Escola da Causa Freudiana, mas se aplica ao plural das Escolas. Quando? Quando a instituição ameaça afastar a diversidade da vida da Escola. A partir daí, o banquete dos analistas [3] acaba sendo a celebração de uma conversa, desde que realizada em um contexto impossível de homologar em um tipo de vínculo e conhecimento estabelecido.

Nas conferencias que ditou no Brasil nos anos 90, enquanto se preparava a criação da Escola Brasileira de Psicanálise, J.-A. Miller colocou em aberto outro aspecto do impossível, ao sublinhar que querer “fazer algo de maneira coletiva não é muito semelhante com o discurso analítico – pois não se admite o imperativo ‘todos juntos’”[4]. Seu argumento é muito fino: refere-se à paixão pelo grupal postulando que isto se deve ao impossível da existência de O analista. Como ele explica? Lançando uma indicação notável ao dizer que toda instituição envolve uma tentativa de restabelecer o Outro, sendo o insuportável da inexistência de O analista, de modo que produz este empuxo.

Ele acrescenta algo notável: sem saber o que é o analista, deseja-se mais o status de membro, secretário, presidente… Que relação estabelece aí? Ele deduz que é nisso que a instituição analítica resulta em uma formação antinômica ao discurso analítico. E postula que todo grupo analítico é uma defesa contra o discurso analítico. Coloca assim sobre o tapete o que circula frequentemente no imaginário institucional e que se abre até mesmo a muitas observações sobre o buscar na Escola este Outro do saber, que designaria o que é um analista. É a esse “desvio” que Lacan respondeu colocando no centro da Escola o não saber que é um analista, como motor, causando uma aposta no trabalho e na invenção. E nos recorda assim que a Escola de Lacan pode sair dos impasses à condição de reconhecer e desejar mudar, “fazer-los desejar a Escola”.

Desejar a Escola difere portanto de querer pertencer. É no lugar do impossível do laço, todo coletivo, há um desejo de Escola, sempre singular, ao qual acrescentaremos um dizer como posição desde a qual se enuncia esse desejo, também singular. Nem um, nem o outro, são comuns a todos.

Dois desejos separados

Lacan fundou a Escola por um desejo. Esse “seu” desejo de Escola, se sustentava em uma relação com uma causa, a psicanalítica, que somente pode ser solitária. Ou seja, uma relação que não é sem uma impossibilidade de fazer relação. Portanto, esse desejo de integrar e sustentar uma Escola, com outros, implica a partir dalí para, contingentemente e de tempos em tempos, tornar algo possível. A inexistência de O analista implica que somente há um analista quando isto se verifica. E há, contingentemente, um desejo de Escola, sob a condição de separar-se do desejo particular do sujeito. Assim o indica J.-A. Miller, em sua “Teoría de Turín acerca do sujeito da Escola” [5]. É isto que denomina “subjetivar a Escola”, tomando a causa freudiana como o Um – significante ideal, ao que cada um subjetiva de um modo singular – sozinho, como sempre se está em relação com a causa psicanalítica.

A Escola garante….

Em seu “Ato de Fundação”, Lacan indicou que a Escola se compromete a dar repercussão ao que há de valioso no que foi produzido desde o desejo, quando oferece o resultado de alguma elaboração sustentada entorno do que não se sabe e seu impossível. A Escola garante – é o termo que Lacan usa! – a repercussão do que se gera dos efeitos-de-formação, que se pode ler na enunciação de cada um por um, constatando-se esse “seu” desejo de Escola. E, em outras ocasiões, pode se captar o que dificulta, tampona essa hiância – que concerne ao mais-de-gozar que perfura o significante – obturando esse furo com o saber.

Nele, a Escola é um conjunto de solidões que não constituem um todo, nem é para-todos. Responde a uma lógica do inconsciente, e por isso, anti-totalitária: S (Ⱥ). E requer dessa interpretação, de que fala J-A. Miller, para que a instituição não tenha precedência passando para o grupo e deslizando para outros discursos.

Uma volta ao inicio: Lacan, o cartel, o passe

Lacan apostou nestes dois dispositivos da Escola, com a intenção de colocar uma pedra na roda deste afão de reintroduzir ao Outro, ou ao grupo, ou os títulos de referencia, como garantia do que se sabe. São efetivos? Nunca de uma vez e para sempre, isto é também inerente ao impossível. No entanto, isso acontece de vez em quando.

Recentemente, em uma Noite de Carteis da Seção Santa Fé da EOL, Gabriela Spina recordava a situação peculiar dos carteis, que faziam parte da Escola, mas em certa extimidade (o interior, o exterior de uma só vez) e recriava essa perspectiva ao referir-se a Escher, artista plástico conhecido como um artista do impossível. O impossível nos protege dos saberes estabelecidos, dos fenômenos de poder, do esmagamento do desejo, e é a favor do conhecimento alegre – a ciência gaya -. Sobre o passe, seu mecanismo e dispositivo são complexos, e também de vez em quando o instituído ameaça sua orientação, e requer ser relançado. Nisto, a Associação Mundial de Psicanálise e J.-A. Miller se ocupam de proteger este movimento. Estamos a trabalhar nisso.

Texto original em espanhol: https://www.revistavirtualia.com/articulos/936/la-vida-de-la-escuela/deseo-de-escuela

Referências

1 LACAN, Jacques. “Ato de Fundação” (1964). In: Outros Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

2 MILLER, Jacques-Alain. “Acero Abierto” (1990). Em tradução brasileira: Opção Lacaniana, nº 34, 2005. Ou: MILLER, J.-A. Introdução ao Método Psicoanalítico. São Paulo: Escuta, 2014.

3 Miller, J.-A., El banquete de los analistas, Paidós, Bs. As., 2000.

4 Miller, J.-A., “La Escuela de Lacan”, Elucidación de Lacan, Paidós, Bs. As., 1998.

5 Miller, J.-A., “Teoría de Turín acerca del sujeto de la Escuela”, Wapol [en línea]. Disponible en <https://www.wapol.org/es/las_escuelas/TemplateArticulo.asp?intTipoPagina=4&intEdicion=1&intIdiomaPublicacion=1&intArticulo=291&intIdiomaArticulo=1&intPublicacion=10>

Tradução livre: Caroline Cabral Quixabeira

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