Elaboração sobre a causalidade psíquica de Jacques Lacan

Texto elaborado a partir de minha fala no encontro do dia 12/08/2026 do Núcleo de Psicose do Instituto de Psicanálise Leste Oeste sobre o texto "Formulações da causalidade psíquica" (1946) de Jacques Lacan.

Cartaz do núcleo de psicose

Neste artigo, percorremos o momento inaugural da psicopatologia lacaniana a partir de “Formulações sobre a causalidade psíquica” (1946), texto em que Lacan critica o organodinamismo de Henri Ey e desloca a causalidade da doença mental para o campo da significação.

Introdução à temática

Segundo Laurent (1991), o ensino de Lacan sofre inflexões teóricas a cada década, sobretudo no campo da psicose. O percurso de nosso núcleo de estudos neste semestre consiste, portanto, em acompanhar o momento inicial dessas elaborações lacanianas.

Esse percurso é marcado pelo diálogo com a psiquiatria, campo do conhecimento que antecede diretamente as pesquisas de Lacan. Além de ser, o que sustenta o próprio laço histórico entre a psicanálise e a psiquiatria. Vale lembrar que a psicopatologia psicanalítica integrou as primeiras edições dos manuais diagnósticos — como o DSM. Mais recentemente, a partir do DSM IV perdeu espaço para a ideia de medicina baseada em evidências.

Esse primeiro momento da formação psicopatológica lacaniana articula dois paradigmas da psiquiatria descritos por Lanteri-Laura (GODOY, 2012). O primeiro é o das doenças mentais, centrado no diagnóstico e na descrição dos signos que levam à definição dos quadros patológicos. O segundo é o da psicopatologia — termo que remonta a 1878 —, voltado a pensar uma estrutura para a doença. Como exemplo, Jaspers com a sua elaboração sobre a psicopatologia compreensiva, fundada na descrição da experiência dos enfermos.

Em Lacan, temos uma perspectiva ainda descritiva, mas dos mecanismos — e não dos signos por si sós —, e articulada a uma lógica de estrutura. Como isso se apresenta?

O texto lacaniano: “Formulações sobre a causalidade psíquica” (1946)

Esse artigo de Lacan, publicado nos Escritos, foi originalmente uma conferência proferida em uma jornada organizada por Henri Ey, colega de Lacan. Trata-se de um trabalho que o próprio Lacan retoma posteriormente, em 1958 e 1967. Nele, Lacan critica as formulações de Ey sobre a causalidade da doença mental — e é justamente por isso que apresento aqui quais eram essas formulações.

A perspectiva de Ey para a causalidade da doença mental parte do organodinamismo. Proposta derivada da formulação de Jackson — neurologista britânico que separou o sistema nervoso em camadas inferiores (automáticas, simples, sensório-motoras) e uma camada superior (complexa: pensamentos, vontades etc.). A partir de uma desorganização orgânica, instala-se, então, uma dinâmica de forças de organização e desorganização que conduz a diversos graus de doença.

Lacan prossegue seu texto com uma crítica às formulações de Ey. Para ele, a teoria organodinâmica se apoia em um “fisicalismo” em que “a causa e o efeito só são possíveis na realidade biológica”1. Lacan nomeia a causa de Ey como incompleta e falsa, na medida em que confere uma dimensão orgânica à psiquiatria, o que leva à pergunta: em que a psiquiatria se diferenciaria da neurologia? Ainda nesse trabalho, segundo a leitura de Lacan, Ey faz um esforço para criticar Clérambault2 sem apresentar uma doutrina psiquiátrica verdadeira — o que, afinal, distingue a obra de Clérambault.

A ideia de uma função orgânica superior que rege uma função inferior, na qual pode ocorrer uma desorganização, instaura, para Lacan, algo como “o homenzinho dentro do homenzinho” (p. 161). Ey considera que as alucinações são erros do sistema sensorial e perceptivo, situados “nas dobras do cérebro”, e que os delírios são erros da significação da palavra, e não da crença.

Com isso, exclui a dimensão do sujeito e mantém uma perspectiva meramente dinâmica. Desse modo, afasta a significação do ato delirante e o reduz a uma falta de controle entre as instâncias inferiores e superiores. Nessa lógica, a loucura ocupa o lugar da fragilidade do organismo, o que conduz a um processo de dessubjetivação. Ey localiza ainda a loucura como um ataque à liberdade enquanto que, para Lacan, a própria loucura é um ato de liberdade. Há nela a abertura para encontrar a significação mais própria do sujeito, aquilo que constitui sua verdade.

Miller formula que a crítica surge da oposição entre Ey e Lacan na dialética entre causa e sentido. Na psicanálise, o sentido é o que está indeterminado e se apresenta como questão. Para Ey, a causa não se conecta ao sentido, visto que não há nenhum elemento nos fenômenos psicóticos que não esteja no nível da realidade física.

A teoria lacaniana da causalidade psíquica

Os fenômenos psicóticos só se constituem como tais quando tomados no registro da significação: não há psicose fora da relação do sujeito com o significante. Você pode notar que um carro vermelho sempre passa mas ele só assume dimensão psicótica quando o sujeito pensa que aquele carro vermelho passa em um sinal dirigido a ele. De maneira que “a discussão não deve ser no nível da sensorialidade, mas no que esses fenômenos têm de atribuição ao sujeito, ao visá-los pessoalmente” (p. 166). Ou seja, o problema da loucura não é separável do problema da significação.

Clérambault, apesar de mecanicista, localizou essas estruturas da linguagem ao comentar o automatismo mental, no qual havia a presença de uma palavra, de uma frase desconhecida ao sujeito. Para Lacan, a loucura não é um déficit, mas um acontecimento que emerge de uma falha aberta na essência do sujeito, de modo que se trata de uma “insondável decisão do ser em que ele compreende ou desconhece sua libertação” (p. 179).

Nesse texto, Lacan — a meu ver — dá os primeiros passos no que encontraremos no Seminário 3, ao localizar no Complexo de Édipo o que permite “constituir normalmente o sentimento de realidade” (p. 183). Penso aqui se apresenta os primeiros indícios da perspectiva da foraclusão que encontraremos posteriormente. Foi isso que lhe permitiu sustentar que a dificuldade de obter exatidão sobre os fenômenos psicóticos relaciona-se ao momento fecundo — o desencadeamento —, pois “esses fenômenos se dão primitivamente como reminiscências, iterações, séries, jogos de espelho, sem que seu próprio dado possa ser situado pelo sujeito, no espaço e no tempo objetivos, de maneira mais exata do que ele consegue situar seus sonhos” (p. 185).

Encontramos também a dimensão da imago, na qual o sujeito se aliena na imagem pela via narcísica. Nela, o homem “se crê homem” e se torna escravo de seu narcisismo. É nesse investimento na imagem em que se aliena que, parece-me, Lacan localiza uma certa causalidade. Ainda nessa imago, algo se inscreve como desconhecido no Eu, visto que se trata de uma identificação com o outro. Para Miller, em Causa y consentimiento, Lacan fará uma torção nessa perspectiva da alienação, deslocando-se da imago para a alienação semântica no sentido do Outro.

Como podemos pensar a causalidade psíquica proposta por Jacques Lacan?

Nesse artigo, Lacan formula sempre em termos de loucura, e não de doença ou de psicose. A loucura se torna um “fenômeno de pensamento” (p. 163), em uma relação próxima com as elaborações de Clérambault. Nesse sentido, “o fenômeno da loucura não é separável do problema da significação para o ser em geral, isto é, da linguagem para o homem” (p. 166) — o que indica que essa formulação da causalidade se dá no campo do significante.

Assim, na perspectiva lacaniana, não se trata de uma causalidade no nível orgânico ou dinâmico, nem de uma resposta do tipo causa-efeito orgânico. Trata-se de uma atribuição ao sujeito, na qual uma significação o visa. O sujeito é colocado no centro: ele não é o alvo dos acontecimentos, mas responde por eles, e vai vivenciando os efeitos de significação que ele mesmo — o sujeito psicótico — produz.

Nesse campo da psicopatologia lacaniana, postula-se uma posição ética contra a universalização: ao focar na significação, já se indica que se trata de algo singular para o sujeito. Miller, em Causa y consentimiento, levanta à questão freudiana ao sublinhar que, enquanto Freud buscava a argumentação etiológica de uma perturbação no desenvolvimento — algo biológico, orgânico, neuronal, instintivo —, ainda restava a algo da dimensão da eleição.

“O louco, ao querer impor a lei do coração, é insensato, pois não reconhece a sua implicação na desordem do mundo, nem que o que ele sente é a imagem invertida de si próprio.”

  1. MILLER, Causa y consentimiento, p. 60 ↩︎
  2. Nos botões abaixo você pode conferir os outros artigos presentes no site sobre a obra de Clérambault. ↩︎


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