Jacques Lacan e sua subversão do conceito de paranoia de Kraepelin

Este texto é produto de um cartel sobre a temática da psicose na época da pandemia. Compartilho o texto com pequenas modificações do que foi apresentado na Jornadas de Cartéis.

Lacan dedica o seu seminário três para o estudo das psicoses, principalmente a paranoia, temática já estudada por ele em sua tese de doutorado “Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade” (1987/2011). Neste primeiro trabalho, Lacan já demonstra a sua divergência com as produções de sua época em dois pontos importantes. Primeiro, ao questionar e buscar investigar o que era realmente um quadro paranoico, já que a palavra paranoia tomou na psiquiatria uma dimensão ampla e pouca precisa de perspectiva nosológica do quadro. No século XIX, a paranoia chegou a representar o diagnóstico de 80% dos pacientes internados nos hospitais psiquiátricos. E segundo, ao questionar a convenção existente da perspectiva continuísta do desenvolvimento da personalidade que levava a um quadro paranoico. (Álvarez, 1985; Lacan, 1987/2011).

No seminário três, temos quatro momentos históricos colocados por Lacan como importantes para a discussão da temática. O primeiro, referente ao início do século XIX em que tudo que foi posteriormente chamado de psicose ou loucura vivia sob a égide da paranoia. Um segundo, em que temos o efeito desta palavra dentro da psiquiatria francesa produzindo uma definição psicológica onde “um paranoico era uma pessoa má, um intolerante, um tipo de mau humor, orgulho, desconfiança, suscetibilidade, sobrestimação de si mesmo.” (p. 13, 1988/2010).

O terceiro momento refere-se às produções conceituais da psiquiatria europeia sobre a paranoia, marcado principalmente pelas figuras de Clérambault, professor de Lacan, Jasper e Kraepelin, o pai da psiquiatria moderna. E um quarto momento, paralelo ao anterior, das discussões propostas por Freud no campo das psicoses. Estas marcadas principalmente pelo estudo do livro “Memórias de um Doente dos Nervos” (1903/1984) nomeado como o “O Caso Schreber” (1911/2019), em que Freud pontua que o campo das psicoses se divide em dois: da paranoia e da parafrenia. 

Dentre estes psiquiatras citados, Kraepelin foi quem se dedicou a criação do tratado de definições clínicas da psiquiatria, precursor do que hoje é conhecido por Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM (Oda, 2010). Na sexta edição de 1899 de seu tratado, Kraepelin elabora uma definição da paranoia: 

“se distingue dos outros porque ela se caracteriza pelo desenvolvimento insidioso de causas internas, e, segundo uma evolução contínua, de um sistema delirante, durável e impossível de ser abalado, e que se instala com uma conservação completa da clareza e da ordem no pensamento, no querer e na ação.” (Kraepelin apud Lacan, p. 27, 1988/2010). 

Para Lacan, a definição criada por Kraepelin é notável por contradizer “ponto por ponto todos os dados da clínica. Nada nela é verdadeiro” (p. 27, 1988/2010). Acompanhando o percurso de Lacan em seu capítulo dois do seminário três, discutiremos de forma breve cada ponto.

Primeiro, a paranoia não é insidiosa, visto que manifesta suas características em seu início, e não quando ela está evoluída. É um quadro marcado por fases, por períodos de estabilidades e de crises, que não segue uma linha cronológica como doenças biológicas e não é uma consequência da evolução da personalidade, como formulada inicialmente pelos psiquiatras continuístas. O segundo ponto é que não podemos limitar a evolução às causas internas, já que a paranoia altera a maneira com que o sujeito se relaciona com o outro, e por isso, estas relações externas podem influenciar na evolução do quadro paranoico. (Lacan, 1988/2010)

O terceiro ponto é que o sistema delirante da paranoia não é durável e impossível de ser abalado pois o sujeito está inserido nestas relações externas. De forma que o paranoico se utiliza das mudanças das relações para compor os seus delírios, sendo, portanto, um sistema delirante moldável ao contexto. O último ponto refere-se à afirmação de Kraepelin sobre a conservação da clareza e da ordem, sendo este o aspecto considerado mais importante para Lacan. (Lacan, 1988/2010)

Ao se utilizar dos termos “clareza” e “ordem”, temos aqui uma posição da psiquiatria e da psicologia muito criticada por Lacan. Ambas, ao estudarem a paranoia, acreditam na possibilidade de compreensão de seus fenômenos, sendo este o lugar no qual se perdem. Se em todo o seu percurso do seminário três, Lacan propõe uma subversão não só do que era compreendido como paranoia, mas também como ela era tratada, deve se principalmente por ele marcar um lugar afastado daquele buscado pela psiquiatria e a psicologia. (Lacan, 1988/2010)

O psicanalista deve partir da ideia do mal-entendido fundamental e crer que não compreende. A crença da compreensão é uma ilusão e produz no estudo e na clínica uma miragem, algo que não está realmente lá. O psicanalista ao estudar o paranoico, deve se colocar como investigador de uma língua fundamental, da qual nada sabe previamente. 

REFERÊNCIAS

Álvarez, J. (1985). Recorrido por los clásicos de la paranoia y reflexiones nosológicas que de éste dimanan: Paranoia y esquizofrenia (I). Quaderns de Psicologia, 0(18), 125 153. https://doi.org/10.5565/rev/qpsicologia.588
FREUD, S. O caso Schreber e outros textos. [S.l.]: Companhia das Letras, 2010.
LACAN, Jacques. Seminário 3: As psicoses. 2. ed.: Zahar, 1988/2010.
LACAN, Jacques. Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade. 2. ed.: Gen, 1987/2011.
ODO, Ana Maria Galdini Raimundo. A paranoia em 1904 – uma etapa na construção nosológica de Emil Kraepelin. Revista Latino-americana Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 318-332, jun. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/rlpf/v13n2/12.pdf. Acesso em: 22 nov. 2020

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