A psicanálise é um campo teórico separado da psicologia e da psiquiatria, mas que corresponde a um espaço de diálogo com ambas. Existem abordagens psicológicas que se desenvolveram a partir da psicanálise — como o psicodrama e a daseinsanalyse. Entretanto, os ramos de cada teoria em muito se afastaram do que é a psicanálise. Já a psiquiatria manteve-se próxima à psicanálise por décadas, incluindo termos como neurose e psicose no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).
Sobre a psiquiatria
Este manual representa uma das referências teóricas usadas dentro da psiquiatria para descrever as formas de adoecimento catalogadas até o momento em nossa sociedade. A psiquiatria busca, pelo relato do paciente, compreender e curar os sintomas e oferecer um diagnóstico quando possível. Assim, o psiquiatra representa uma parte do tratamento e, em muitos casos, os médicos recomendam acompanhamento terapêutico adicional.
E a psicanálise?
A psicanálise nasceu com Sigmund Freud em 1900 por meio de sua teoria acerca do inconsciente. Freud descreve ser humano composto pelo seu funcionamento biológico e psíquico. Este último é responsável pela maneira com que agimos e pensamos. O aparelho psíquico é composto por um funcionamento próprio marcado por conteúdos inconscientes, pré-conscientes e conscientes. Muitos teóricos produziram sobre a teoria de Freud, como Winnicott, Melanie Klein e, principalmente, Jacques Lacan.
É a partir da leitura de Lacan que desenvolvo o meu trabalho em consultório, tratando assim de uma psicanálise lacaniana. Ela se diferencia da freudiana por partir da perspectiva do efeito da linguagem e das palavras na formação psíquica, o que levou Lacan a postular que o “inconsciente é estruturado como linguagem”. Portanto, na análise lacaniana a ênfase do tratamento está em que se possa falar livremente; e, a partir disso, o paciente se encontre com sua responsabilidade em seus sintomas e construa um caminho para mudar.
De modo que o tratamento psicanalítico é o espaço para aquelas pessoas que sabem racionalmente algo mas percebem que continuam agindo de uma maneira que lhes causa sofrimento. Diferente da psiquiatria, na que se oferece um comprimido para curar, a psicanálise não promete uma cura; entretanto, isso não impede que muitos sintomas desapareçam com o tratamento. A ideia do tratamento psicanalítico é poder compreender e perceber sua própria maneira de agir, descobrindo como fazer de uma maneira diferente diante da vida.
Para usar um jargão da psicanálise, o tratamento permite construir um “saber-fazer” com o próprio jeito de ser, buscando um quadro de menos mal-estar, mas que, para ser alcançado, exige perceber a responsabilidade que o sujeito tem sobre aquilo que o aflige.
É indicada para algum tipo de diagnóstico específico?
Como a psicanálise é uma teoria voltada para o tratamento do mal-estar, ela é capaz de atender o sofrimento humano de uma maneira geral. O que torna possível ou não o tratamento é mais a relação da pessoa do que o diagnóstico em si. A psicanálise não é indicada para quem não quer falar (o que é diferente de ter dificuldade em falar!). Também não é adequada para quem busca um passo a passo para resolver algum problema. No caso das crianças não é necessário ter domínio da linguagem, pois elas se comunicam de outras maneiras.
Portanto ela não é indicada para algum diagnóstico específico, visto que o trabalho é sempre com o sujeito, que vai para além do diagnóstico.

